Foi esse o tempo em que o corintinao demorou pra gritar campeão
novamente, após a conquista do título e 1954.
A torcida não aguentava mais tanta gozação. Foi um verdadeiro
martírio, mas que teve fim no sagrado ano de 1977. O fim das gozações. O
reeencontro com os títulos.
Veio, como não poderia deixar de ser, de modo sofrido. Mas veio.
Vamos ver como foi.
O Corinthians não começou bem o campeonato, que teve o Botafogo
de Sócrates como vencedor do primeiro turno. Restava vencer o segundo
turno para continuar com chances no campeonato. E não deu outra. Em 18
jogos, o time vence 13 e vai disputar o título do turno. Na semifinal,
ganha do São Paulo por 1 a 0, e na final despacha o Palmeiras com uma
vitória simples.
Vem o terceiro e último turno. Os oito melhores times do
campeonato lutam por duas vagas. Com duas derrotas nos quatro primeiros
jogos, o Corinthians é obrigado a vencer os três últimos compromissos,
contra Botafogo, Portuguesa e São Paulo, para continuar respirando no
torneio.
Com muito esforço, o Timão passa por mais essa batalha e chega
para fazer a final contra a Ponte Preta, que contava com craques como
Carlos, Oscar, Polozzi, Dicá e Rui Rei.
Como havia perdido três jogos para a Ponte durante o campeonato,
sendo um em Campinas por 4 a 0, o Corinthians festejou a decisão da
Federação Paulista de Futebol de colocar todos os jogos das finais no
Morumbi.
No primeiro deles, vitória corintiana por 1 a 0. A torcida,
feliz, já se preparava para fazer a grande festa no domingo, dia 9 de
outubro. Com um simples empate, o título, finalmente, iria para o Parque
São Jorge. Entusiasmada, a torcida do Timão compareceu em massa ao
Morumbi e estabeleceu o recorde de público do estádio que dura até hoje:
138.032 espectadores.
O clima parecia propício para o fim do jejum. Mas, com a contusão
de Palhinha no primeiro tempo, a incerteza começou a aparecer. O gol de
Vaguinho, que substituíra o atacante, aos 43 minutos, parecia colocar
tudo de volta ao normal. Puro engano. Vem o segundo tempo e, para
desespero da Fiel, a macaca reage. Dicá, aos 22 minutos e Rui Rei, aos
33, viram o jogo e calam o Morumbi. A decisão estava adiada para
quinta-feira à noite.
Apesar de não ser tão grande como no domingo, a torcida
corintiana enche o Morumbi para ver aquele que seria o jogo da
libertação, do fim do jejum, que já durava 22 anos, oito meses e seis
dias.
Começa a partida e logo de cara, aos 16 minutos, mais de 80 mil
corintianos vêem o perigoso atacante Rui Rei reclamar com o juiz
Dulcídio Wanderley Boschillia e ser expulso. Quem temia por uma nova
tragédia passou a ficar mais aliviado.
Mesmo precisando de um empate no tempo normal e na prorrogação, o
Corinthians foi para cima da Ponte. Geraldão, artilheiro do Timão
naquele campeonato com 24 gols, quase abre o placar aos 39 minutos, após
aproveitar um cruzamento de Vaguinho.
Chega o segundo tempo. Os dois times entram nervosos e muito
cautelosos. O medo de tomar um gol fez com que as equipes ficassem
apenas se defendendo. Em raros contra-ataques, o perigo aparecia. Em um
deles Dicá, da macaca, cabeceia livre na área. Para fora.
Assustado, o técnico Brandão se levanta e manda o time para o
ataque. Aos 36 minutos, Zé Maria bate uma falta pela direita. A bola
percorre toda a pequena área e vai parar no pé de Vaguinho, que, de
bico, chuta a bola no travessão do goleiro Carlos. Na volta, ela quica
no chão e sobe para Wladimir cabecear. Em cima da linha, Oscar, também
de cabeça, salva. Mas no rebote, a bola sobra para o pé direito de
Basílio. O meia, com toda a força, faz então o esperado gol. Festa no
Morumbi. Restavam apenas 8 minutos. Nessa hora, não havia mais esquema
tático. Pouco antes de acabar, Oscar e Geraldão, que foi o artilheiro do
campeonato com 24 gols, brigam e são expulsos. Aos 46, Dúlcidio pede a
bola e encerra a partida: o Corinthians é campeão. Fim do jejum. Fim do
sofrimento.
A torcida invade o campo e comemora com os seus ídolos. Brandão é
carregado no colo, o presidente Vicente Matheus perde os sapatos, os
jogadores ficam quase nus.
O coro de “é campeão” toma conta da noite paulista e invade a
madrugada. A partir daí, surge um novo Corinthians. Acabaram-se os
traumas e o time volta a ser o bom e velho vencedor. O gol de Basílio
foi o mais importante da história corintiana. Veja seu depoimento sobre
o jogo:
“A terceira partida da final do Paulistão de 77 foi
a melhor que nós fizemos no campeonato. Jogamos determinados, fomos pacientes e
também atrevidos. Tanto que, mesmo precisando do empate, fomos para cima da
Ponte Preta. No primeiro tempo merecíamos ter feito uns dois ou três gols. Na
segunda etapa, o jogo ficou equilibrado até o gol. O lance saiu de uma bola
parada e eu, depois do bate-rebate, fiz o gol de direita e corri para a galera.
Após o jogo, queríamos dar a volta olímpica, mas foi impossível. Pouco importa.
O que valeu mesmo foi a festa e o fim do jejum.”
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Basílio comemora o gol da redenção
Torcedores invadem o campo e pagam promessa: é o sofrimento da fiel Vicente Matheus segura a taça. O ex-presidente era um dos mais emocionados com a conquista A taça de 1977 Em pé: Zé Maria, Tobias, Moisés, Ruço, Aemir e Wladimir.
Agachados: Vaguinho, Basílio, Geraldão, Luciano e Romeu.